5. COMPORTAMENTO 28.11.12

1. BISPO BEST-SELLER
2. "O CU E O INFERNO NO SO FOLCLORE"
3. NEM ESTUDAM, NEM TRABALHAM

1. BISPO BEST-SELLER
Autobiografia de Edir Macedo  o livro mais vendido no Brasil e bate recordes no exterior. Em "Nada a Perder", fundador da Igreja Universal diz que sofreu bullying, afirma que sua sina  barrar os catlicos e conta como a priso influenciou sua vida
 Mrio Simas Filho

 LIDERANA - Estudiosos afirmam que os mesmos fiis que Macedo consegue atrair em cultos como o realizado no Maracan (acima) so potenciais compradores de seus livros
 
Acusaes de charlatanismo, curandeirismo e enriquecimento com a explorao da f dos mais humildes no impediram a Igreja Universal do Reino de Deus de se transformar em um dos maiores fenmenos religiosos das ltimas dcadas. Nem mesmo a priso de seu principal lder interrompeu o crescimento da denominao evanglica criada por Edir Macedo h 35 anos e hoje presente em 182 pases. Certamente o contingente de fiis conquistados pela IURD  que levou seu fundador a ser o principal protagonista de outro fenmeno que vem ocorrendo no Brasil desde 30 de agosto e na semana passada comeou a ecoar tambm no Exterior. Trata-se de um fenmeno editorial. Nada a Perder, primeiro livro da trilogia autobiogrfica de Edir Macedo, lanado pela Editora Planeta h menos de trs meses, j vendeu mais de 350 mil exemplares e ostenta o ttulo de livro mais vendido no Brasil em 2012, de acordo com o portal Publishnews, referncia para o mercado editorial. A biografia do bispo superou o best-seller mundial 50 Tons de Cinza e deixou para trs as biografias de Eike Batista, Danuza Leo e Steve Jobs.
 
Com uma eficiente estratgia de divulgao, os lanamentos feitos em diversas cidades atraem milhares de pessoas. No sbado 10, por exemplo, mais de 25 mil exemplares de Nada a Perder foram vendidos apenas na livraria Nobel do Shopping Metr Tatuap, em So Paulo (leia quadro  pg. 71). Na ltima semana, Edir Macedo comeou a fazer os lanamentos internacionais, com eventos na Argentina, Colmbia e Venezuela. O resultado surpreendeu at os discpulos mais prximos. No sbado 17, em dez horas foram vendidos 56,3 mil exemplares na centenria livraria El Ateneo, em Buenos Aires, um recorde na histria do mercado editorial argentino, segundo Antnio Dalto, gerente-comercial da rede de livrarias El Ateneo. Um lder carismtico tende a agregar pessoas e qualquer coisa que ele lanar ser disputada por seus admiradores, diz o professor de ps-graduao em cincias da religio da Universidade Metodista de So Paulo, Leonildo Silveira Campos. Vivemos em uma sociedade que gera tristeza e depresso. Com isso, as pessoas buscam falas confortantes como as que so feitas por Edir Macedo, avalia Joo Batista Libanio, da Faculdade Jesuta de Filosofia e Teologia de Belo Horizonte (MG).

NA CADEIA - O bispo responsabiliza os lderes catlicos pelos 11 dias que passou na priso acusado de charlatanismo, curandeirismo e estelionato
 
Com a publicao de sua autobiografia, Macedo provavelmente provocar algumas polmicas. Ele afirma, por exemplo, que a sina da Universal  barrar a Igreja Catlica. O bispo conta que ainda jovem ocupava um emprego pblico na Loteria do Rio de Janeiro, obtido com o auxlio do ex-governador Carlos Lacerda, com quem a famlia tinha alguma proximidade. Era uma mistura de contnuo com auxiliar de escritrio, que determinado dia, levando ao p da letra uma ordem interna, impediu a entrada de um monsenhor, enviado pelo arcebispo para recolher dinheiro que na poca algumas sociedades catlicas recebiam das loterias. Eu barrei a Igreja Catlica naquele dia, diz Macedo. E, simbolicamente, seria um prenncio do que se tornaria a sina da Igreja Universal ao longo dos anos.
 
No livro, o bispo detalha os questionamentos sobre si mesmo desde a infncia at a vida adulta. Nada a Perder, no entanto,  mais do que uma leitura sobre o interior de Edir Macedo. Ele no poupa as demais religies, inclusive evanglicas, e dispara forte contra os catlicos, cujos lderes so apontados como os principais responsveis por seus infortnios. No captulo em que narra os 11 dias em que passou na priso acusado de charlatanismo, curandeirismo e estelionato, em 1992, Macedo assegura ter sido alvo de perseguio do Clero Romano. Eram polticos de prestgio, empresrios da elite econmica e social, intelectuais, juzes, desembargadores e outras autoridades do Poder Judicirio que tomavam decises sob a influncia do alto comando catlico.

EM FAMLIA - Com a mulher, Ester, as filhas, Viviane e Cristiane, e o filho adotivo, Moyses: reunio cada vez mais rara
 
Edir Macedo nasceu em um lar catlico e durante anos foi devoto de So Jos. Fez seus primeiros contatos com espritas e evanglicos a partir do sofrimento vivido por uma irm asmtica e, no livro, relaciona uma srie de frustraes com o Vaticano. Lembra o dia em que, com 15 anos, foi levado pelos pais para cultuar a imagem de Jesus morto em uma Sexta-Feira Santa e saiu assustado com a violncia expressa naquela imagem. Macedo tambm se recorda que, depois de frequentar alguns cultos evanglicos em uma igreja chamada Nova Vida, destruiu as imagens e medalhinhas religiosas que carregara consigo. Botei todos aqueles objetos no cho, fitei os olhos deles e, apontando o dedo com desdm, desabafei: Desgraados! Vocs me enganaram!, gritava, pisando com raiva naqueles pedaos de papel e na gargantilha.
 
A histria do bispo Edir Macedo  um relato que pode ajudar a explicar um dos maiores fenmenos sociolgicos da histria recente do Pas, diz o jornalista Douglas Tavolaro, vice-presidente de Jornalismo da Rede Record e coautor do livro, produzido a partir de mais de 100 horas de conversas gravadas e intensa pesquisa jornalstica. Em 237 pginas, o fundador da Universal transcreve e interpreta de forma bem popular uma infinidade de passagens bblicas. Mas, queles que buscam explicaes mais racionais para a liderana de um pastor que em 35 anos construiu uma das maiores igrejas do mundo, no so raras as passagens compostas por argumentos absolutamente terrenos para falar sobre a multiplicao de templos e de fiis. Macedo deixa claro, por exemplo, que um dos segredos da Universal  a sua insero social, principalmente no que diz respeito  recuperao de criminosos e no atendimento  sade. A Igreja Universal permite ao Estado economizar bilhes em tratamento hospitalar e na ressocializao de presos, descreve o bispo, que reafirma a ocorrncia de milagres em seus templos. Duas passagens chamam a ateno. Na primeira, Macedo conta a histria de duas mulheres adornadas usando roupas de grife que passeavam em uma rua conhecida pelo comrcio de luxo em So Paulo. Na conversa, ambas se referiam a ele como um charlato. Durante o dilogo, narra o pastor, teriam sido interrompidas por um homem que escutara o bate-papo e no se fez de rogado ao abord-las. Me desculpe, mas as madames no sabem o que dizem sobre esse homem, afirmara o rapaz. No fosse por ele, as senhoras estariam sendo assaltadas agora. Sou ex-bandido. E fui recuperado por Deus na Igreja Universal.

Em outra passagem, Macedo conta que um taxista atendeu um senhor no Rio de Janeiro. Durante o trajeto, o motorista comeou a falar mal das igrejas evanglicas. O passageiro, segundo narrado no livro, pediu que o taxista parasse onde estavam, pagou a corrida at aquele ponto e ao descer do carro teria dito ao motorista: O senhor est com Deus. At bem pouco tempo eu era assaltante de txi e se no fosse o trabalho da Universal o senhor seria assaltado por mim e quem sabe no seria at assassinado. A nfase dada ao trabalho com a populao carcerria, segundo o prprio bispo, veio aps a sua experincia. No livro, Macedo revela que, apesar de permanecer 11 dias em uma cela especial, teve que dormir no cho em um colchonete fino e diz que no sucumbiu graas s manifestaes dos fiis na porta da delegacia. Na cadeia o ar pesava. O cheiro forte incomodava. Foi possvel entender a revolta da populao carcerria no Brasil, afirma o bispo.
 
Sem nenhum compromisso com a cronologia dos fatos, o bispo conta pela primeira vez que sofreu bullying na infncia em razo de um problema fsico nas mos. Seus dedos indicadores so tortos, os polegares finos e todos se movem pouco. Muitas vezes senti um certo complexo de inferioridade, me considerava o patinho feio da escola e at da famlia. Sempre fui motivo de zombaria. Muitos adultos e meninos da minha idade me chamavam de dedinho. O bispo lembra ainda que adolescente chegava a ironizar os evanglicos da Assembleia de Deus que se reuniam para orar no campo do So Cristvo. Aleluia, aleluia! Como no prato e bebo na cuia, gritava o garoto Edir Macedo, enquanto corria de bicicleta ao redor do culto evanglico e ainda carregava uma medalhinha no pescoo.

No ms que vem, Nada a Perder ser lanado na Espanha e em Portugal. Em janeiro, ser a vez de Frana, Estados Unidos, Mxico, Angola, Moambique, frica do Sul e Inglaterra. Os outros dois livros autobiogrficos sero lanados em 2013 e 2014. No segundo, Edir Macedo diz que ir revelar as suas relaes com os polticos e empresrios e, no ltimo, detalhar a compra da Rede Record.


2. "O CU E O INFERNO NO SO FOLCLORE"
Em entrevista exclusiva, Edir Macedo conta que no tem residncia fixa, diz que a Igreja Universal ainda  perseguida pelos catlicos, relata o ltimo encontro com a presidenta Dilma Rousseff e fala sobre o futuro da Igreja e da Rede Record
Mrio Simas Filho

Edir Macedo estava no apartamento de aproximadamente 200 metros quadrados no ltimo andar do prdio da Igreja Universal do Reino de Deus, na avenida Joo Dias, em So Paulo, quando soube que o lanamento de sua autobiografia "Nada a Perder", na Argentina, fora um sucesso (leia reportagem  pg. 68). Na sequncia, Macedo foi informado de que o livro tambm ser traduzido para o francs e imediatamente comeou a procurar data na agenda para promover um lanamento em Paris no incio do prximo ano. Foi no embalo dessas notcias que, no domingo 18, sentado no sof da sala do imvel que costuma ocupar quando est em So Paulo, Edir Macedo concedeu entrevista exclusiva  ISTO. Nos ltimos sete anos,  a primeira entrevista do bispo a um meio de comunicao que no pertence a ele. Aos 67 anos, o lder da IURD e dono da Rede Record entende que ainda  tratado como o chefe de uma seita pela cpula catlica. Ele relata o ltimo encontro que teve com a presidenta Dilma Rousseff, afirma que milagres continuam a ocorrer em seus templos e se mostra emocionado quando faz referncia s pessoas que conseguem encontrar na Universal um novo caminho para suas vidas. 
 
ISTO - Como  sua rotina? Por que o sr. no mora no Brasil?
 Edir Macedo - No tenho uma rotina definida. Dedico cem por cento do meu tempo s questes espirituais da Igreja Universal do Reino de Deus em todo o mundo. No exero uma profisso ou um cargo executivo, exero uma misso de f que tem como nico objetivo pregar o Evangelho. Isso exige certos sacrifcios, como, por exemplo, no ter uma residncia fixa. Viajo os continentes, o mximo que posso, para ensinar o que temos recebido de Deus aos pastores e ao nosso povo. Em quase todos os pases, moro em apartamentos construdos no prdio da Igreja. Minha vida se resume ao altar e ao convvio com minha esposa, Ester.
 
ISTO - O sr.  um homem rico?
 Macedo - Vivo da ajuda de custo da Igreja e dos direitos autorais. A Igreja Universal no  patrocinada pelo governo ou por qualquer iniciativa privada. Temos despesas para pagar. Aluguis, reformas e construes de centenas de templos, contas milionrias de luz e gua, ajuda de custo de milhares de pastores, mais de 5.800 funcionrios registrados etc., etc... Quem paga tudo isso? O dinheiro no cai do cu.  Deus quem d o sustento para a Sua Igreja abenoando a vida das pessoas. Quanto mais elas recebem, mais elas nos ajudam a investir no Evangelho. E mais: nunca recebi nenhuma remunerao da Record, nem como pr-labore ou como ganho de lucros, conforme demonstrado nos balanos da emissora, registrados na Junta Comercial. Todo o lucro  reinvestido na prpria Record. Ela est a para crescer e conquistar um espao ainda maior.
 
ISTO - Alm da Record, o sr. possui empresas em outros ramos?
 Macedo - Tenho em meu nome a Record, mas meu prazer mesmo  pregar o Evangelho.
 
ISTO - O bispo Edir Macedo consegue se distanciar do empresrio das comunicaes Edir Macedo? 
Macedo - Deixo os negcios sob responsabilidade dos profissionais contratados para tocarem o dia a dia da Record, por isso no me considero um empresrio. No tenho riqueza maior na vida do que a minha f. O nome do meu livro no  uma mera expresso literria. No tenho nada a perder. E isso  um recado claro e direto a quem interessar.
 
ISTO - Logo no incio do livro o sr. diz que, no momento de sua priso, polticos de prestgio, empresrios, juzes e desembargadores tomavam decises sob a influncia do alto comando catlico. Quais eram os polticos e juzes que agiam sob influncia da cpula catlica?
 Macedo - A Igreja Universal foi e continua sendo atacada. Isso no acabou. Somos sempre alvo de certos setores da sociedade incomodados com a perda de espao e privilgios, como a Globo e o Vaticano. H um claro preconceito por trs disso. Uma postura agressiva velada. Ou algum duvida que a Globo s me ataca e ataca a Igreja Universal por causa da Record? Para eles, a Record  uma ameaa. Naquele tempo da minha priso, por exemplo, houve um escndalo sem precedentes na televiso de que pouca gente lembra. A Globo teve a petulncia de colocar, em uma cena de novela, uma atriz, prestes a ter relaes sexuais, jogando o suti em cima da "Bblia Sagrada". Voc tem ideia do que isso significa? Uma afronta ao smbolo maior da f crist. A "Bblia" no  um livro sagrado apenas da Igreja Universal, mas de todos os cristos. E o que aconteceu? Nada! Muita gente aplaudiu, achou bonito. Em outro pas, essa emissora de tev no passaria sem punio. E agora, vrios anos depois, essa mesma emissora quer patrocinar eventos de msica gospel? D para acreditar nas intenes dessa empresa? Estranho, no ?

ISTO - A relao dos lderes catlicos com a Universal mudou de l para c? E com o Judicirio?
 Macedo - No temos relao com esse segmento religioso (os catlicos) porque eles ainda nos consideram como seita. No temos nada contra o povo catlico, em sua enorme maioria formada por gente sincera e de bem. Depois de 35 anos, apesar do trabalho social e espiritual desenvolvido pela Igreja Universal, ainda somos tratados com preconceito, mas vamos em frente, vamos arrebentar de qualquer maneira. Sempre foi assim. Sobre os membros do Judicirio, penso completamente diferente. Tenho uma avaliao extremamente positiva do nosso Judicirio. Confio muito no senso de justia e independncia da classe de magistrados do nosso pas.
 
ISTO - Como o sr. se relaciona com a presidenta Dilma Rousseff? E com os ex-presidentes Sarney, Collor, Fernando Henrique e Lula?
 Macedo - Ao longo dos ltimos anos tivemos alguns encontros com a presidenta Dilma, por quem tenho profundo respeito. O ltimo encontro aconteceu em Londres, durante os Jogos Olmpicos. Procuramos mostrar a ela e aos demais ministros que a democracia nos meios de comunicao, principalmente na televiso,  o melhor caminho para o Brasil. Alertei a presidenta Dilma que o monoplio nas comunicaes  um caminho perigoso para o Pas. Tambm tivemos algum relacionamento com os demais presidentes brasileiros e diversas autoridades de outros pases. Mais isso vou detalhar no volume dois do meu livro de memrias.
 
ISTO - O sr.  bem tratado pelos agentes do poder?
 Macedo - Todos nos tratam com considerao pelo trabalho de recuperao social que a Igreja Universal realiza junto s mais variadas classes sociais. Quantos bilhes os governos economizam com o atendimento espiritual proporcionado pela Igreja Universal? Quando algum vence uma crise crnica de depresso ou supera o vcio das drogas, por exemplo, quanto o sistema de sade pblico economiza? Imagine esse efeito multiplicado aos milhes.
 
ISTO - Estudiosos das igrejas neopentecostais tm pesquisas mostrando que os fiis costumam fazer um rodzio entre as inmeras denominaes. A Universal seria a preferida daqueles que passam por problemas financeiros. Isso  real?
 Macedo - A Igreja Universal  um pronto-socorro espiritual. Ela recebe gente que sofre com os mais variados males, entre eles dificuldades financeiras. Isso me faz lembrar uma importante reflexo. Se tanta gente chega arruinada e  enganada e explorada por ns, como dizem por a, por que elas permanecem na Igreja Universal? O que  enganado, se deixaria enganar uma nica vez e no voltaria nunca mais. Mas por que existem tantos templos lotados no Brasil? Por que existem tantos membros fiis com dcadas de Igreja? Como explicar esse crescimento em todo o mundo, acima de culturas, raas e idiomas? No  o cumprimento da promessa do bispo Macedo na vida delas.  o cumprimento dos juramentos bblicos.

ISTO - Socilogos so unnimes ao explicar o sucesso da Igreja Universal pela mxima de que em seus cultos sustenta-se que a felicidade plena deve ser alcanada e conquistada na vida presente. Ento, no seu entender, como seria a vida eterna, a vida ps-morte?
 Macedo - Exatamente como a "Bblia" ensina: salvao da alma para os que aceitam e praticam essa f e condenao para os que no aceitam. Isso est escrito de maneira simples e objetiva. Acredita quem quer. O destino aps a morte  definido pelas escolhas que o ser humano faz em vida. O cu e o inferno no so folclore. Aceitar o Senhor Jesus como seu Salvador  o nico caminho da salvao eterna da alma. E essa  a maior riqueza de qualquer pessoa. No existe bem maior do que a salvao da nossa alma.
 
ISTO - A principal acusao que o levou  priso foi a de charlatanismo, em razo de cultos em que havia exorcismo. Nos cultos realizados pelo padre Marcelo Rossi, por exemplo, tambm se diz que os dons do Esprito Santo so usados para a operao de milagres. O que o difere do padre Marcelo?
 Macedo - No tenho a mnima ideia do que acontece em outros lugares. O fato  que a Igreja Universal baseia sua crena cem por cento nos ensinamentos da Palavra de Deus. E na "Bblia" existem exemplos claros e incontestveis da manifestao da f atravs da realizao de curas e da libertao espiritual. Temos milhares de histrias reais de pessoas que experimentaram esses milagres e podem atestar, nos dias de hoje, a veracidade das promessas crists. Mas o maior milagre  a conquista da f inteligente, capaz de gerar uma mudana radical de comportamento, a transformao completa de pensamentos e de valores.
 
ISTO - No livro, o sr. sugere que as perseguies contra a Universal aumentaram depois da compra da Record.
 Macedo - Como disse, o avano da Record incomoda muita gente. Crescimento ainda maior da Record significa o fim do monoplio, dos mandos e desmandos de certos bares da mdia, de grupos religiosos conservadores contrrios  prtica da f que ensina as pessoas a pensar livremente. So esses setores da sociedade que sempre nos atacaram. Muita gente me odeia sem ao menos me conhecer. Pessoas que nem sequer pararam para pensar mais a fundo sobre os princpios que defendemos. Eu s quero que elas pensem e no formem suas opinies pelo que leem nos jornais ou veem na televiso. Eu sei que a tendncia da maioria  ter uma opinio negativa sobre ns porque as pessoas sempre foram alimentadas pelas informaes da mdia. Eu no as culpo. Desejo apenas que pensem. S isso. Pensem.
 
ISTO - O sr. interfere no dia a dia da Record? Tem conhecimento prvio do que vai ao ar?
 Macedo - Existe um comit de gesto formado pela presidncia, vice-presidncias e algumas diretorias estratgicas que tomam as decises no dia a dia da Record. Eles se reportam a mim, de tempos em tempos. So profissionais competentes que tm feito um timo trabalho e em quem depositamos nossa confiana. Muitas vezes sou surpreendido por uma estreia ou outra no ar.  claro que tambm dou minhas opinies e sugestes, mas so muito raras. Algumas so reprovadas (risos) e outras aprovadas, como a produo de minissries bblicas, a exemplo de "Rei Davi". Foi uma inovao importante para a televiso brasileira. O trabalho foi belssimo, alcanou um excelente resultado de audincia e atingiu diferentes tipos de pblico. A determinao geral  seguirmos firmes na construo de uma emissora de tev com programao diversificada e de qualidade, voltada para todos os brasileiros.
 
ISTO - Quais os seus planos para o futuro da emissora, j que o mercado das comunicaes passa por grande transio?
 Macedo - A Record tem um projeto de televiso em andamento. No vivemos de um acerto pontual ou outro na programao. Construmos um departamento de jornalismo slido e com credibilidade, uma fbrica de novelas prpria com milhares de funcionrios e um projeto comercial que conquistou a confiana dos anunciantes. O ano de 2013 ser de grandes investimentos em nossa emissora. Nossa meta  a liderana, no importa o tempo que isso demore para acontecer. Nosso foco est bem definido. Vamos chegar l. Vamos arrebentar.


3. NEM ESTUDAM, NEM TRABALHAM
Apesar do crescimento econmico do Pas, aumentou na ltima dcada o nmero de brasileiros entre 18 e 25 anos sem escola e sem emprego. Eles so 20% dos jovens
Rachel Costa 

EM CASA - Violo e academia so os passatempos de Thas, 18 anos, para as tardes desde que terminou o ensino mdio
 
Fora do mercado formal, o trabalho da jovem Miessa Pagliato, 25 anos,  correr atrs do filho Arthur, de 3 anos. Desde que engravidou, trocou o emprego de assistente administrativa pela famlia. Planejava, para 2013, pr Arthur na escola e voltar a trabalhar, mas uma nova gravidez a fez encarar mais um perodo em casa. O futuro que lhe espera, ela sabe, no ser dos mais fceis. J no sou mais to nova, estou defasada para o mercado de trabalho e no tenho uma boa formao, resume a jovem, que engrossa a lista dos nem-nens, traduo para o portugus do termo espanhol nini, uma corruptela de ni estudian, ni trabajan. O termo tornou-se popular em uma Espanha arrasada pela crise e onde os jovens tm encontrado muita dificuldade para conseguir trabalho. Aqui, de acordo com o ltimo censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatstica (IBGE), os nem-nens j so um a cada cinco jovens entre 18 e 25 anos, uma massa de 5,3 milhes de pessoas. Em 2000, no censo anterior, eram 4,8 milhes de nem-nens, que representavam 18,2% da populao. O que impressiona  que nem a reduo do desemprego nem a ampliao das vagas de formao tcnica e superior foram capazes de reverter o nmero.
 
Ficamos surpresos, espervamos encontrar menos jovens nessa situao, diz Adalberto Cardoso, coordenador do projeto Juventudes, Desigualdades e o Futuro do Rio de Janeiro, responsvel pelo cruzamento dos dados do Censo. A grande questo  entender por que brasileiros tm seguido por esse caminho. Para uma parcela significativa, a resposta  a mesma de Miessa: a maternidade. Cerca de um tero dos nem-nens so jovens mes. Essa era uma trajetria comum no passado, mas, como se v, ainda tem sobrevivido, considera Mario Rodarte, da Faculdade de Administrao e Cincias Econmicas da Universidade Federal de Minas Gerais. Outro grande grupo, acredita Rodarte, seria formado por uma juventude descontente, que no se sente seduzida pela transio entre educao e trabalho, que normalmente ocorre nessa idade. Nessa ciranda, que envolve ensino de m qualidade e postos de trabalho pouco atrativos, os mais prejudicados so os mais carentes  70% dos nem-nens fazem parte dos 40% mais pobres da populao. Tambm no podemos esquecer que uma parte pode estar envolvida com a criminalidade, muito associada a homens nessa faixa etria, avalia Andr Portela, da Escola de Economia da Fundao Getlio Vargas.

 ESPERA - Daniel, 19 anos, depois de uma tentativa frustrada de trabalho, promete que ainda volta a estudar
 
Mas isso no significa que classes sociais altas tambm no produzam seus nem-nens. Em um bairro de classe mdia da zona oeste de So Paulo, o jovem Daniel Jachimowicz, de 19 anos, largou os estudos em um colgio particular sem nem completar o primeiro ano do ensino mdio. Tomei pau duas vezes e desisti, resume. Neste ano, experimentou trabalhar em um rodzio de comida japonesa, mas achou que era muito esforo para pouco salrio. Durei um ms. No me sobrava tempo livre, queixa-se. Decidiu ento continuar em casa, acordando tarde e gastando os dias entre computador, videogame, ensaios da banda e rodas de cerveja com os amigos. Para o futuro, planeja um curso de gastronomia, mas primeiro ainda precisa de um diploma do ensino mdio.
 
Em casos como o de Jachimowicz, a gerao nini brasileira se aproxima mais da europeia. L, antes da crise, o conforto provocado pelo crescimento econmico na dcada passada e o bem-estar social j faziam os jovens enxergarem a casa como uma opo. No queria ir para a universidade ainda, porque no tinha certeza do curso a fazer, diz Thas Romano, 18 anos. Ela vai prestar vestibular, mas decidiu no priorizar os estudos em seu ano sabtico, que dedicou  academia e ao violo. Vou tentar na raa, conta. Meus irmos mais velhos so os que mais me xingam. Eles me mandam arrumar alguma coisa para fazer.

ME - Miessa, 25 anos, precisou deixar o trabalho para cuidar do filho Arthur. Grvida novamente, sabe que no ser fcil se reinserir no mercado
 
Nesses casos em que a famlia tem mais recursos  mais fcil para os nem-nens se reinserirem no mercado. Com menor ou maior intensidade, porm, h sempre perda. Quanto mais o jovem retarda o incio de sua vida profissional e no se qualifica, mais a concorrncia se acirra, porque vai haver mais gente com mais experincia disputando vagas, afirma Eduardo de Oliveira, do Centro de Integrao Escola Empresa.  essa experincia que vive hoje Mariana Ferreira Gug, 20 anos. Filha de pai vendedor e me administradora, ela resolveu sair da escola em 2010, sem completar o primeiro ano do ensino mdio. Agora, resolveu buscar emprego. Descobriu, porm, que embora haja muitas vagas de trabalho, seu currculo  fraco por causa da formao acadmica deficiente e da falta de experincia. Hoje eu me arrependo. No comeo foi tudo uma festa, mas depois eu fui ficando cansada de ficar em casa e quis trabalhar, diz ela, que planeja fazer supletivo em 2013.


